05 julho, 2006

04 julho, 2006

STOP, aproximação de assunto com prioridade, ou devaneio de forma desconexa

Já não é preciso ir mais longe para que se exija o retratamento dos que discordaram. Daqui para a frente é melhor emitir opinião no fim, tal como os prognósticos.
Já todos usam comentaristas no lugar de comentadores, como se os segundos chegassem há uns dias do Brasil. Somos assim.
R&R já trocaram mensagens, falta saber se seguiu alguma piscadela de olho em MMS.
Docentes aptos para trabalhar mas inaptos para dar aulas, têm feito o quê? Ronaldo treinou à parte mas está apto. Afinal Freitas tem coluna, mas está com problemas. Arrumou as botas ou não foi convocado para não prejudicar o balneário.
Entre Fátima e o Caravaggio aparece um senhor pequenino que defende penalties com coração de leão, depois de ter sido um rato. Ratos e Homens, ténue fronteira.
Se acha que Portugal pode ser campeão do Mundo, ligue para a sua mãe.
Se acha que, independentemente do que se passar a partir de agora, os jogadores merecem uma recepção apoteótica, ligue para empregada lá de casa com quem perdeu a virgindade.
Se acha que sem Scolari damos 20 passos atrás, vá directamente para a prisão sem passar pela casa de partida. A resposta certa seria 2 mil pés de altitude.
Eixo franco-alemão, hoje; aliança germânico-transalpina ontem. Afinal já há muito que se trata do mata-mata, deixemo-nos de neutralidades.
Ocorre-me uma gorda de um diário de hoje – Em Pamplona quem enfrenta os touros é um herói. E por cá? Que Paris não seja uma festa.

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade, As Amoras

23 junho, 2006

Harriet (1830 - 2006)

O animal mais velho do mundo morreu agora, aos 176 anos de idade. Trata-se de Harriet, uma tartaruga Geochelone nigra das Ilhas Galápagos, que foi Harry até aos 100, por um erro científico na classificação sexual. O mito diz que esta teria sido uma das quatro tartarugas levadas por Charles Darwin para Inglaterra em 1835, e que terá sido o seu animal de estimação durante muito anos. Mas análises ao tamanho do seu quintal revelaram que seria impossível Harriet ter vivido em tão exíguo espaço. Segundo Paul Chambers, o investigador por detrás desta teoria, Darwin e a tartaruga gigante nunca se encontraram. Harriet nasceu na ilha de Santa Cruz, uma das que o autor da teoria da evolução nunca visitou. A sua viagem pelo mundo terá começado nas mãos de um marinheiro anónimo de um baleeiro, directamente para a Austrália, antes de 1870. Alta vida, antes disso. Descansa em paz, Harriet.

05 junho, 2006

Sexta-Feira, 02 de Junho, da era Floydiana

As 70 mil pessoas que não arredaram pé ao longo de 2 horas e meia de um concerto que começou já depois da meia-noite, tinham o direito de ouvir aquilo que as fez ir lá.
Suportado por uma banda competentíssima, um coro de vozes femininas de topo - The Great Gig in The Sky roçou a perfeição, um surround sound system verdadeiramenete impressionante e uma carga visual e pirotécnica com conta peso e medida, Roger Waters apresentou na passada 6ª feira, de forma soberba, o concerto que os fãs dos Pink Floyd queriam ver e ouvir. Tecnicamente perfeito.
Waters foi (depois da saída de Barret) a verdadeira alma e o génio criativo de uma das maiores bandas de sempre. O único elemento verdadeiramente insubstituível. Se dúvidas existiam, pelo menos para quem esteve no parque da Bela Vista deixaram de existir.
As 10 torres de som espalhadas pelo recinto faziam girar à nossa volta helicópteros, relógios, máquinas registadoras… No palco sucediam-se fotografias de Syd Barret e imagens de álbuns emblemáticos como Wish You Were Here, The Wall, The Final Cut ou Animals, com Sheep a encerrar a 1ª parte.
Uma envolvência audiovisual que nos transportava para onde quiséssemos ir. Arrepios, muitos arrepios, embora a noite estivesse quente.
A primeira parte do concerto, com cerca de 90 minutos, voa a sabor de momentos simplesmente brilhantes: Have a Cigar (Wish You Were Here), Southampton Doc ou The Fletcher Memorial Home (The Final Cut) são apenas alguns dos muito exemplos.
A segunda parte é inteiramente dedicada à reprodução integral de um dos maiores álbuns da história da música – The Dark Side of the Moon. A projecção do círculo Floydiano, o jogo de luzes psicadélicas e só os coelhos fogem (Run, Rabbit Run…em Breathe), de resto ninguém arreda pé. É difícil colocar em palavras.
No “encore”, grita-se a plenos pulmões Bring the Boys Back Home. Por fim, Confortably Numb deixa-me assim mesmo, confortavelmente dormente, ainda do lado de lá.

Um pouco de educação, please

O estatuto dos professores está a ser seriamente ameaçado e, nem por acaso, vem logo uma reportagem da RTP explorar um caso em que os professores sofrem dos alunos, colocando-os, assim de repente, num papel de vítima depois de estarem a ser julgados na praça pública como incompetentes, o que até nem é uma afirmação muito arriscada.

O vídeo da RTP mostrava exemplos de como as professoras eram insultadas, desrespeitadas, agredidas e ofendidas. Houve algumas que tiraram baixa médica e entraram em consultas de rotina no psicólogo. Outras, garantiram que só conseguiam continuar a dar aulas por amor à profissão, fazendo delas um cavaleiro aventureiro. Acredito que tudo isto seja verdade, mas é preciso não esquecer alguns pontos e evitar o histerismo total de parte a parte, comportamento bastante comum na discussão deste assunto.

O vídeo que foi mostrado não reflecte a realidade do país. Há muitas situações difíceis em Lisboa e no Porto, mas fora destes centros urbanos são uma excepção, normalmente controlada. O facto de não ter sido identificada a escola em questão e de, apenas no fim ter sido dito, por legendas, que aquela era uma situação particular e não reflectia a realidade dos outros estabelecimentos de ensino serve para provar o contrário, com o seguinte esquema: atenção, isto é tão grave que até nos sentimos na obrigação de esclarecer que se trata de uma excepção, e não da regra. Obrigado, mas já sabíamos.

Outra coisa é a revisão do estatuto de professor, neste momento em cima da mesa da ministra que tutela a àrea. Em termos gerais, pretende-se responsabilizar os professores pela qualidade da profissão que exercem. Para isso, socorre-se da progressão escalonada (através de exames científicos, por exemplo) e da monitorização do seu trabalho por parte dos principais visados, os pais. Os professores estão com medo e com razão. Quem já trabalhou numa escola, sabe que a incompetência reina. Para se ensinar é necessário, em primeiro lugar, ter algo para ensinar. Uma dessas coisas é maturidade e essa é escassa nas escolas. Os professores não são hoje exemplo para ninguém.

Depois de dizerem que ninguém tem competência pedagógica para avaliar o seu trabalho, vêem dizer que pôr em causa o seu conhecimento científico para a matéria que leccionam é também pôr em causa o ensino das universidades. Têm razão. Nas universidades, o ensino também é uma merda, pelas mesmas razões que no preparatório e secundário.