11 abril, 2007

Dossier Sócrates

Ontem, na SIC Notícias foi o cúmulo. Ricardo Costa (SIC) acicatava, José Manuel Fernandes (Publico) respondia, Sarsfield Cabral (Rádio Renascença) assentia, João Garcia (Expresso) ajudava. Todos estes jornalistas exigiram a cabeça de Sócrates e insinuaram, desde o início do programa, que o primeiro-ministro tinha sido favorecido pela Universidade Independente e vice-versa. Não interessa tentar perceber como é que este caso se arrastou desde há três semanas (duas, para quem não lê jornais). João Marcelino (ex-Correio da Manhã, actual director do DN) foi o único a ter os pés bem assentes na terra e a dizer que até ver, todas essas implicações entre Sócrates e a UI eram suposições e nada mais. Acrescentou ainda que, tal como eu e muita gente, nem sequer percebia porquê tamanho burburinho à volta do assunto. Sócrates lidou mal com o caso porque o devia ter enterrado logo no início. Mas o mais curioso é ver como os directores "de referência" depressa passaram para o tablóide em busca de algum assunto que levantasse a alma dos respectivos meios. E, do outro lado, como o director vindo do "tablóide", refreeiou os ânimos e não alinhou nesta feira. No meio da conversa de uma hora e meia, todos os directores de referência acharam que o assunto foi bem explorado, porque merecia ser explicado aos portugueses. Contudo, não foi isto que aconteceu. O que aconteceu foi estes meios terem trazido para a rua uma suposição e exigirem o julgamento popular do caso. Conforme chegou a dizer José Manuel Fernandes, exigia-se que as pessoas tivessem aos seus meios a possibilidade de se interrrogarem sobre este assunto. Convenhamos: deste interrogar até ao julgar, a diferença para as massas não é muita. E houve quem dissesse que nos jornais de referência norte-americanos (ainda hoje os baluartes de excelência) o assunto tinha sido e já o fora explorado da mesma forma. Isso é mentira. Nunca o New York Times ou o Washington Post mandavam para a rua a informação sem terem um verdedicto sobre o assunto. No caso Watergate, por exemplo, não se "supôs" nada; ao contrário, acusou-se directamente, e com provas. Para quem se queixa das tentativas de controle do Governo sobre os jornais (facto normal em qualquer democracia evoluída), deram um bom exemplo de profissionalismo. Será irónico que o dossier Sócrates acabe hoje, quando este der a entrevista à RTP. Será precisamente quando ele esclarecer tudo o que tem a esclarecer que os jornais de referência ficam sem nada para dizer.

05 abril, 2007

Quem vê TV ainda sofre mais que no WC?


Muito se tem discutido a questão do serviço público de televisão em Portugal. Se existe, se não existe, se há concorrência desleal com os canais privados, se os canais da RTP se constituem uma verdadeira alternativa, enfim, usam-se factos umas vezes, pressupostos outras, para se justificar uma posição que é necessariamente parcial quando se joga por qualquer das equipas (RTP ou SIC e TVI).
Não é fácil chegar a um conceito claro do que deverá ser o serviço público de televisão: é serviço público fazer programas de cariz cultural e intelectual para uma minoria de telespectadores, sobretudo quando este público-alvo tem, de um modo geral, um perfil sócio-económico que lhes permite aceder à cultura por outras vias? Enquadrar-se-á neste conceito um programa como o Preço Certo, que entretém centenas de milhares de pessoas todos os dias sem, contudo, acrescentar algo de minimamente relevante sob o ponto de vista educacional, de cidadania ou cultural?
Ao contrário do que se vem afirmando, na minha opinião é sobretudo o 1º canal da RTP que se tem constituído como verdadeira alternativa televisiva, sobretudo para quem não tem acesso às programações via cabo ou satélite. Este facto é particularmente relevante porque se trata de uma alternativa não de nicho, tarefa bem mais fácil, mas de massas.
Há anos que SIC e TVI abandonaram por completo o jornalismo de investigação, a informação aprofundada e complementar e o debate político. Neste momento só a RTP trilha esses caminhos - os programas do Marcelo Rebelo de Sousa e do António Vitorino, Prós e Contras, Grande Entrevista, Debate da Nação, o recente Portugal: um Retrato Social.
Depois de uma inicial e prolongada hegemonia da SIC ter dado lugar a uma hegemonia também prolongada da TVI, tem-se assistido nos últimos tempos a uma divisão tripartida de forma mais ou menos igualitária entre os 3 canais: de um modo geral a liderança tem pertencido à TVI, contudo sem grande distanciamento relativamente à concorrência. Acresce que o Canal 1 da RTP chegou já ao 2º lugar, ultrapassando a SIC (Março de 2006: 1º TVI 28%; 2º RTP1 27.6%; 3º SIC 25.8%).
Não obstante o peso do futebol na programação, de que tanto se queixam os operadores privados e com os quais concordo neste aspecto, há um sinal claro de que as horas intermináveis de programação dedicadas a telenovelas e reality shows terão que ser reajustadas – a estratégia do mesmo que se sucede ao mesmo que já havia de mais, estarará a ficar saturada. Felizmente.

27 março, 2007

The stairway to...

AHCOT

Importa-se de repetir?

“Novo gestor da REN saiu da Galp há um ano com indemnização de meio milhão”

Este é o título da notícia do dia que veio hoje a público no Público, sendo depois reproduzida por diversos orgãos de comunicação.
Com umas “gordas” intencionalmente apelativas como estas quem é que se dá ao trabalho de ler a notícia? Ninguém.
Não tenho que fazer aqui qualquer defesa, muito menos de alguém com os bolsos bem mais endinheirados do que os meus, mas faz-me muita confusão a vontade que existe em encontrar casos chocantes de insulto e ultraje ao pobre povo Português. A vontade é tanta que nem se tenta perceber o que realmente aconteceu. Passo a citar:
“Rui Cartaxo é quadro do Banco de Portugal, de onde transitou para a administração da Transgás, então acabada de fundar por Elias da Costa, e onde permaneceu depois da sua integração na Galpenergia, sempre por nomeação do Estado. Com a chegada de Américo Amorim à Galpenergia e a redução da posição do Estado, renunciou ao cargo por decisão dos novos accionistas privados para dar lugar a Ferreira de Oliveira, o antigo presidente da petrolífera que assim regressava à administração da empresa por nomeação do novo accionista privado e da qual é hoje presidente executivo.”
O que aconteceu é que alguém nomeado pelo estado é (naturalmente) convidado a sair pelos accionistas privados a partir do momento em que se tornam maioritários. Também me parece claro que os accionistas privados saberiam muito bem dos valores envolvidos no decorrer deste processo.
Mas, percebo, sem oposição tem que ser a comunicação social a fazer algum barulho.