08 outubro, 2007

Um PCP maior

Demorei tempo, mas percebi. Aquilo que Jerónimo de Sousa queria dizer com "teria a maioria absoluta se os protestos fossem só de comunistas" significa que admite que o seu partido é pequeno demais para fazer frente ao governo e que gostava de ter mais apoio, da parte de outros "democratas" como ele.
A estratégia utilizada para fazer oposição agora, não é muito diferente da utilizada proverbialmente pelo PCP. Deixar o governo falar, para depois se pôr do contra. Revela a origem baixa do partido e uma forma de argumentação utilizada por quem não tem argumentos. Basta ver as suas propostas, que nunca passaram da luta pelos direitos dos trabalhadores e por uma socieadade justa. Bem dito, mas acho que os outros partidos também pretendem o mesmo. Ninguém actua de má-fé. Daí a diabolização dos "do lado de lá", como dizia a Simone e o Carlos do Carmo, referindo-se ao palco/plateia. Daí também a separação entre os que têm sempre razão, porque são coerentes, e os que não têm nunca razão porque andam ao sabor do capital e das exigências impostas pela sociedade capitalista.
No entanto, esta forma de oposição já não se faz só no Parlamento. Ela é móvel, persegue os eventos da agenda do governo e pretende afirmar-se sempre que o governo se quer afirmar. O ministro abre uma ponte, o PCP (ou um dos seus satélites) está lá para dizer que a ponte não devia ter sido feita ali. Mais, envia um professor ou um enfermeiro para entregar uma prenda, que pode ser um dossier de propostas ou uma lista de despedidos, ao ministro. Tudo em directo, tal como o governo quis mostrar. Trata-se de uma oposição parasita, que exige poucos meios e funciona bem. É uma operação cirurgicamente planeada, onde tudo tem que funcionar a horas e sem falhas. Faz lembrar outros tempos e outros modos de actuar que nem devo referir. É por isso que José Sócrates tem razão quando chama a atenção para a diferença entre o direito à manifestação e o direito ao insulto. Bem sei que dizer, hoje em dia, que Sócrates acertou uma é estar incondicionalmente do lado dele. Os direitos estão confundidos. O despespero da oposição de esquerda é total. A direita nem existe. Por isso têm que ser todos contra um. Faz lembrar os últimos anos de Cavaco. Por isso é que Jerónimo de Sousa acredita que a manif de dia 18 será "a maior acção", reparem na linguagem, "das últimas décadas". Mas quem é que o segue? Quem vai lutar, "na primeira linha de combate", em nome do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, dos direitos justos dos professores, dos trabalhadores com salários em atraso ou ameaçados de despedimento, dos pequenos agricultores e empresários? Menezes? Nem ele.

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