13 abril, 2007

Dossier Sócrates II

Não há outra forma de o dizer: o Público passou-se dos cornos.
Num artigo da edição de hoje, que pode ser visto aqui, o jornal faz uma análise às declarações do primeiro-ministro na entrevista da RTP, de quarta-feira. Esta análise não teria nada de especial, se não fossem alguns factos curiosos.
Todas as declarações analisadas são contraditórios que Sócrates levou para o écran, visando directamente o Público. Estas eram a sua resposta às insinuações do diário, que por sua vez são agora rebatidas em papel. Ou seja, vamos já no quarto grau de realidade, interpretações em cima de interpretações, que parecem não ter fim.
No post anterior, defendi que o caso ficaria encerrado depois da entrevista. Enganei-me redondamente, e apenas por ingenuidade. Tal como nunca pensei que Sócrates descesse ao ponto de passar quase uma hora, em directo, no programa mais visto desse dia, a explicar o seu percurso de aluno, também nunca pensei que o Público, depois disso (e este depois é já o segundo dia consecutivo a remexer na merda) se desse ao trabalho de rebater o que o primeiro-ministro tinha dito, quase palavra a palavra. Um bom exemplo é este trecho sobre a discussão à volta do número de cadeiras feitas e meses passados a estudar:

55 cadeiras para
se licenciar

"Eu fiz 55 cadeiras para me licenciar, fui analisado e avaliado por dezenas de professores e são eles que podem falar das minhas qualidades académicas e que estão aliás expressas nas notas"

Ao contrário do que disse, José Sócrates não completou "55 cadeiras para se licenciar" mas sim 43 cadeiras, contando todas as disciplinas do ISEC, ISEL e UnI. Para obter uma licenciatura, também não fez sete anos e meio de estudos superiores, mas sim seis anos lectivos.

Outro facto curioso é a forma como o o jornal trata o assunto. Para não cair numa lógica de tablóide, não pode tratar este assunto como uma notícia. Para não queimar o nome dos seus colunistas, não pode explorar o assunto como opinião. Como o director já está metido numa embrulhada da qual não consegue sair, não o pode fazer como editorial. O que resta? Uma análise, claro, esse género jornalístico entre o facto e a opinião, tantas vezes criticado pelos meios portugueses, que agora é assumido como normal. E quem assina? O Público, como entidade abstracta, e não ninguém em concreto como seria normal.
Mas sendo o Público o autor desse artigo, só deixo duas perguntas: como se sente Rosado Fernandes, o editor de economia do Público que na televisão disse que o assunto não merecia tanto tratamento e que agora se vê como co-autor daquele artigo?; e o artigo é assinado por Público para defender os jornalistas da casa ou para a Sonae (proprietária do Público) enviar um recado ao Governo a dizer que não esquece o assunto, como muita gente tem insinuado?

2 comentários:

Anónimo disse...

Quando começei a ler o teu artigo pensei logo na questão Sonae e no tal assunto "que muita gente tem insinuado".
Quando acabei de ler o teu artigo cheguei à conclusão que ambos partilhamos a mesma opinião.
Tenho para mim que a azia de outro engenheiro ainda não passou, daí esta autêntica perseguição.

Anónimo disse...

Não acredito nada em imprensa independente. Nem há santos nesta matéria. Desde que os órgãos de comunicação social foram encarados pelos grandes grupos económicos como ferramentas de gestão, a liberdade de imprensa é muita relativa. A notícia encomendada, o artigo ou editorial encomendado, etc., são dados comuns hoje em dia. Este caso é paradigmático.