05 abril, 2007

Quem vê TV ainda sofre mais que no WC?


Muito se tem discutido a questão do serviço público de televisão em Portugal. Se existe, se não existe, se há concorrência desleal com os canais privados, se os canais da RTP se constituem uma verdadeira alternativa, enfim, usam-se factos umas vezes, pressupostos outras, para se justificar uma posição que é necessariamente parcial quando se joga por qualquer das equipas (RTP ou SIC e TVI).
Não é fácil chegar a um conceito claro do que deverá ser o serviço público de televisão: é serviço público fazer programas de cariz cultural e intelectual para uma minoria de telespectadores, sobretudo quando este público-alvo tem, de um modo geral, um perfil sócio-económico que lhes permite aceder à cultura por outras vias? Enquadrar-se-á neste conceito um programa como o Preço Certo, que entretém centenas de milhares de pessoas todos os dias sem, contudo, acrescentar algo de minimamente relevante sob o ponto de vista educacional, de cidadania ou cultural?
Ao contrário do que se vem afirmando, na minha opinião é sobretudo o 1º canal da RTP que se tem constituído como verdadeira alternativa televisiva, sobretudo para quem não tem acesso às programações via cabo ou satélite. Este facto é particularmente relevante porque se trata de uma alternativa não de nicho, tarefa bem mais fácil, mas de massas.
Há anos que SIC e TVI abandonaram por completo o jornalismo de investigação, a informação aprofundada e complementar e o debate político. Neste momento só a RTP trilha esses caminhos - os programas do Marcelo Rebelo de Sousa e do António Vitorino, Prós e Contras, Grande Entrevista, Debate da Nação, o recente Portugal: um Retrato Social.
Depois de uma inicial e prolongada hegemonia da SIC ter dado lugar a uma hegemonia também prolongada da TVI, tem-se assistido nos últimos tempos a uma divisão tripartida de forma mais ou menos igualitária entre os 3 canais: de um modo geral a liderança tem pertencido à TVI, contudo sem grande distanciamento relativamente à concorrência. Acresce que o Canal 1 da RTP chegou já ao 2º lugar, ultrapassando a SIC (Março de 2006: 1º TVI 28%; 2º RTP1 27.6%; 3º SIC 25.8%).
Não obstante o peso do futebol na programação, de que tanto se queixam os operadores privados e com os quais concordo neste aspecto, há um sinal claro de que as horas intermináveis de programação dedicadas a telenovelas e reality shows terão que ser reajustadas – a estratégia do mesmo que se sucede ao mesmo que já havia de mais, estarará a ficar saturada. Felizmente.

1 comentário:

Anónimo disse...

O WC como espaço de sofrimento é discutível, contudo concordo que a RTP tem revelado alguma melhoria na sua programação (a atenção ao debate político, boas opções nas séries e no filmes escolhidos, não se arrastando numa guerra com as privadas que não pode ser ganha. O serviço público continuará a ser um pouco como a paz no mundo.