Uma curta pesquisa permite ver que um livro como “Foi Assim”, de Zita Seabra, faz falta para levantar fervura no debate sobre um período da história feito de mitos e depoimentos orais, encerrado em muitas contradições, desmentidos, com uma posição do PCP que não ata nem desata e então, para quem não teve o prazer de acompanhar os cinco anos de 75 a 80, fica apenas um limbo interessantíssimo de seguir. “Comunistas ferrenhos”, como se dizia então, acusam Zita Seabra de ser uma traidora e uma pessoa sem carácter, uma categoria onde caem todos os que mudam de opinião, principalmente quando esta nasce a partir da constatação de contradições que o partido encerra. Pessoas de outros quadrantes políticos, à esquerda e à direita, também dizem que Zita Seabra é uma pessoa a abater moralmente, porque entra num partido de direita (PSD) por puro oportunismo e aceitam o fim da sua relação com o PCP como se o problema fosse ela e não o partido. Recordo-me vagamente de quando isto aconteceu e de não ouvir uma única pessoa a tentar compreender. Até hoje, as dissidências dos militantes em época democrática foram sempre pouco faladas e muito poucas vezes aproveitadas por outros partidos. A história de Zita Seabra é interessante do princípio ao fim porque mostra que pessoas muito inteligentes entravam para o partido da acção não cegamente mas conscientes de que aquela era a melhor solução para o país e para o mundo. E mostra, nas primeiras 50 páginas que eu li, uma organização extrema, quase semelhante a um formigueiro de ideias e comportamentos que funcionava como um relógio para chegar aos seu fim. Mas, sobretudo, de como a ideologia comunista conseguia que as pessoas se tornassem instrumentos ao serviço de uma organização, deixando tudo para trás: família, filhos, mulheres, fortunas, amigos.
23 agosto, 2007
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1 comentário:
O melhor do comunismo é também o seu pior. Quanto a Zita Seabra, assino por baixo, até porque lá em casa também havia dedos em riste apontados à senhora, cujo nome acabou por se tornar sinónimo de traição.
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