23 março, 2006

Sem Rede

Lobo Antunes assina hoje na Visão (mais) um artigo brilhante. Tanto mais quando é sobre nada de concreto. Na literatura, o meu interesse prevalece sobre o “modo” como se escreve em detrimento do assunto sobre o qual se escreve. É no fazer do nada algo que nos prende, que distingue os grandes escritores dos outros. Em Portugal, como no mundo, Lobo Antunes está lá em cima. Maior só mesmo Virgílio Ferreira com um “Para Sempre”, sem dúvida eterno.
A mesma coisa no cinema, ocorre-me “O Rei das Rosas”, do alemão Werner Schroeter, ou “Estrada Perdida”, filme maior de David Lynch, perante os quais tenho enormes dificuldades em explicar o que tratam. Sobretudo o 2º, porque o considero um dos meus filmes preferidos (nada disso do filme da minha vida, mas sim um dos filmes das minhas muitas vidas, interpretando-as como momentos que vão constituindo um todo).

Este paradoxo do prazer extraído sobre algo quase de inexplicável tem mais de reconfortante do que de intrigante.

Lobo Antunes está sentado à mesa sem saber o que escrever e escreve, quase subliminarmente, sobre isso mesmo, olhando o seu próprio reflexo no vidro da janela - “(…) Levo as minhas folhas e, ao chegar à porta, apercebo-me que o homem do reflexo continua a escrever. Publiquem-lhe a crónica e deitem esta fora. Assim como assim, não irei terminá-la.”

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