08 setembro, 2006

Um mundo americano

Ler o Diário de Notícias de manhã, depois de ter passar a noite a devorar “Hooking Up – Um mundo americano”, de Tom Wolfe, é como levar uma estalada na cara e ser obrigado a responder à seguinte pergunta: Porque é que ainda se perde tempo a ler jornalismo menor?
O motivo não está tanto na qualidade do DN que, neste momento, é do melhorzinho que se pode ler, mas antes na desarmante capacidade de Wolfe para contar histórias, absorver pormenores, ligar factos e tirar conclusões, como o excelente capítulo sobre a criação da Intel.
“Hooking Up” é o último livro do escritor norte-americano publicado no país e é um conjunto de ensaios-reportagem sobre a grandiosidade dos EUA em ganhar mas também perder oportunidades. Tom Wolfe é o último exemplo vivo da geração que criou e matou o Novo Jornalismo, como ele se encarrega de explicar no livro. E o que é o “Novo Jornalismo”? Nada mais nada menos que uma reacção à falta de criatividade das hard news em voga nos anos 40 e 50. Com escritores-repórteres como ele, Norman Mailer, Joseph Mitchell e o mais célebre de todos, Truman Capote, começou a tratar-se a informação real como matéria de ficção, abandonando o resumo e o tratamento puro e duro do facto em si. É o que acontece com “A Sangue Frio”, de Capote, ou o seu “A Fogueira das Vaidades”, numa clara homenagem aos escritores de língua inglesa de finais de sec. XIX, como Stephen Crane ou Charles Dickens.
Se hoje em dia a capacidade de contar histórias no papel está morrer, passando para o cinema e a televisão, explica Wolfe, não é porque o público não saiba ler. É antes porque os escritores e jornalistas se alheiam da realidade onde vivem, perdendo tempo em fantasias inúteis e menorizando histórias que são grandes histórias. Wolfe faz o contrário, e de que forma!

Sem comentários: