11 setembro, 2006

Volver a las novelas

O último filme de Almodóvar é quase um regresso aos seus exageros: as cores, a direcção de actrizes, o movimento de câmara. Durante a primeira meia-hora de “Volver” é impossível não lembrar de “O que é que eu fiz para merecer isto?”, onde Cármen Maura interpretava uma mulher de emprego precário, que ao final do dia se tornava numa mulher-a-dias. Esse mesmo papel é agora explorado por Penélope Cruz de uma forma... espantosa. O cabelo, a pose, o decote, o andar, a forma de falar, são os de uma sopeira ordinária, mas sensível e com uma atitude prática e lutadora perante a vida. Dois pormenores que Almodôvar utiliza para aproximar “Volver” às telenovelas cor-de-rosa dos anos 80. Primeiro, a gravação de voz ligeiramente dessincronizada para dar uma aspecto de mundo faz-de-conta. E depois, a condução da história: os indícios óbvios do desenvolvimento (e do final) do filme, pela voz dos personagens, como se piscassem o olho ao espectador e deixassem entrever que algo estaria para acontecer daí a pouco e que acontece mesmo.

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