15 fevereiro, 2008

No reino dos animais

Cristiano Ronaldo corre menos que um cavalo, o mesmo que um pinguim e mais do que um esquilo. A aparente desconexão comparativa, dá a conhecer, quase que subliminarmente, algumas particularidades interessantes do reino animal.
Vejamos:

"Cristiano Ronaldo é o jogador mais rápido da Premier League. (...)A correr atrás de uma bola, o internacional português consegue atingir uma velocidade máxima de 33,6 quilómetros por hora, números ainda bastante distantes dos de uma chita (110 km/h) ou de um cavalo de corrida (75 km/h), mas muito semelhantes aos de um pinguim (37 km/h) e superiores aos de um esquilo (20 km/h)"
Jornal O JOGO, edição de 15/02/2008

O grande problema é que quem assim contribui para o enriquecimento cultural das pessoas, raramente é reconhecido.

14 fevereiro, 2008

E Baden Powell dá mais uma volta no túmulo

A Media Markt lançou recentemente uma nova campanha publicitária, mantendo o habitual slogan do “Eu é que não sou parvo”. Desta vez apresentam os habitantes de uma terra chamada “Parvónia” que ainda não sabiam da existência dos preços baixos desta, como sói dizer-se, superfície comercial.
Pelos vistos um desses habitantes era, ou pelo menos estava vestido, de escuteiro.
Ó mundo vil em que vivemos! Que é feito dos valores morais desta nossa sociedade?! Já nem o inocente e impoluto corpo nacional de escutas escapa à pura ofensa gratuita?!
Não podiam colocar no anúncio um paneleiro ou um preto? Ou um Chinês a falale, que até tinha mais piada? Não, tinham que ofender a honra e a dignidade de 80.000 Portugueses, escuteiros, cuja prinicipal característica é o sentido de humor.

Eu, como muitos provavelmente, nem repararia que por lá andava um escuteiro se a direcção do CNE não viesse mexer na merda.

Os criativos que fizeram o anúncio evitavam facilmente estes dissabores. Bastava que dissessem que a "Parvónia" é, vá lá, o país todo.

PS: Obrigado à Media Market pelo LCD e o Home Cinema oferecido, não foi com essa intenção que escrevi este post, mas parvo seria se não aceitasse...

10 dezembro, 2007

Vazio existencial

Alguma coisa me dizia para ir ao site da RTP2. As previsões confirmaram-se. A minha vida deixou de fazer sentido. Pior que o Inverno, só coisas más a acontecer no Inverno. Depois de segundas-feiras a fio mantendo-me incólume, às 22h45, em frente à televisão, perdi o último episódio d' "Os Sopranos". Hoje já não dá. E nasce em mim um vazio existencial semelhante ao do dia em que Christopher Moltisanti foi assassinado ou quando tive bilhete reservado para os Animal Collective num cacilheiro e não fui. Com que cara olho agora para a minha Sony? Qual o lugar dela na minha sala? Um cataclismo destes só pode ser ultrapassado por o quê? Uma integral do Scorcese na Cinemateca? O novo filme do Coppola? O Twin Peaks em substituição do "A Ganhar é que a Gente se Entende" na SIC?

08 novembro, 2007

Empurrado por um vento idiota

Parto de coração vazio. Esta terra é pequena demais para se viver desta forma. A ficar, definhava certamente até não haver uma réstia de pensamento ou amor próprio dentro de mim. A partir, teria que ser definitivamente, com o compromisso de esmagar qualquer memória ou recordação que teimasse em acompanhar-me. De outra forma nunca conseguria existir.
É assim que chego à Cidade, sem qualquer contacto, referência ou prioridade.
Os primeiros tempos são de clausura quase total. Lentamente, como um animal recém-nascido, vou alargando o campo em que me movo. Todos os dias arrisco mais um pouco, dou mais uns passos, o mundo novo que tenho diante dos meus olhos obriga-me a penetrá-lo.
Além dos livros, chega o contacto com a música e o cinema. Eis Dylan. Bob que podia ser Thomas, Dylan por causa de Thomas. Lá, agora, sempre, Dylan. Blood on the Tracks faz a descrição do eu que trazia comigo. Dylan descreve tudo o que sinto de uma forma para mim inatingível ou sequer pensada. Dylan explica-me a existência desse vento idiota que nos empurra sem rumo ou destino, que nos despe de discernimento ou vontade e nos deixa apenas a vaguear inconscientemente por um mundo que não queremos nosso, mas que é o único que temos.

(…)
I can't feel you anymore, I can't even touch the books you've read
Every time I crawl past your door, I been wishing I was somebody else instead.
Down the highway, down the tracks, down the road to ecstasy,
I followed you beneath the stars, hounded by your memory
And all your raging glory.

I been double-crossed now for the very last time and now I'm finally free,
I kissed goodbye the howling beast on the borderline which separated you from me.
You'll never know the hurt I suffered nor the pain I rise above,
And I'll never know the same about you, your holiness or your kind of love,
And it makes me feel so sorry.

Idiot wind, blowing through the buttons of our coats,
Blowing through the letters that we wrote.
Idiot wind, blowing through the dust upon our shelves,
We're idiots, babe.
It's a wonder we can even feed ourselves
[1].

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[1]Letra de Idiot Wind, uma das músicas do álbum Blood On the Tracks de Bob Dylan, publicado em 1976


"Tarântula", única obra de ficção de Bob Dylan escrito em 1966, chegou ontem às livrarias.

23 outubro, 2007

Cinema: a crítica

Os críticos escrevem sobre cinema ou substituindo os nomes do realizador e dos actores poderia ser sobre uma peça de teatro ou um livro? A resposta aqui.

12 outubro, 2007

O congresso do PSD

A meio da década de 90, ainda como director do Independente, Paulo Portas assinou um editorial sobre o congresso do PSD que se pautava por uma coluna a um terço da página com o título "O Congresso do PSD", sem nada escrito a não ser no fundo da página uma linha com o seguinte: "Isto são as ideias discutidas no congresso do PSD". Agora, mais de dez anos depois, é possível dizer-se o mesmo. A única novidade será Santana Lopes como líder parlamentar. No entanto, pode ser que se saiba no que é que consiste o acordo que os dois fecharam ao jantar num hotel. Eu aposto que é o caminho para meter Santana outra vez como primeiro. Resta saber é como.

PS: E a lista de ausências? Vai ofuscar a lista de presenças?

08 outubro, 2007

Um PCP maior

Demorei tempo, mas percebi. Aquilo que Jerónimo de Sousa queria dizer com "teria a maioria absoluta se os protestos fossem só de comunistas" significa que admite que o seu partido é pequeno demais para fazer frente ao governo e que gostava de ter mais apoio, da parte de outros "democratas" como ele.
A estratégia utilizada para fazer oposição agora, não é muito diferente da utilizada proverbialmente pelo PCP. Deixar o governo falar, para depois se pôr do contra. Revela a origem baixa do partido e uma forma de argumentação utilizada por quem não tem argumentos. Basta ver as suas propostas, que nunca passaram da luta pelos direitos dos trabalhadores e por uma socieadade justa. Bem dito, mas acho que os outros partidos também pretendem o mesmo. Ninguém actua de má-fé. Daí a diabolização dos "do lado de lá", como dizia a Simone e o Carlos do Carmo, referindo-se ao palco/plateia. Daí também a separação entre os que têm sempre razão, porque são coerentes, e os que não têm nunca razão porque andam ao sabor do capital e das exigências impostas pela sociedade capitalista.
No entanto, esta forma de oposição já não se faz só no Parlamento. Ela é móvel, persegue os eventos da agenda do governo e pretende afirmar-se sempre que o governo se quer afirmar. O ministro abre uma ponte, o PCP (ou um dos seus satélites) está lá para dizer que a ponte não devia ter sido feita ali. Mais, envia um professor ou um enfermeiro para entregar uma prenda, que pode ser um dossier de propostas ou uma lista de despedidos, ao ministro. Tudo em directo, tal como o governo quis mostrar. Trata-se de uma oposição parasita, que exige poucos meios e funciona bem. É uma operação cirurgicamente planeada, onde tudo tem que funcionar a horas e sem falhas. Faz lembrar outros tempos e outros modos de actuar que nem devo referir. É por isso que José Sócrates tem razão quando chama a atenção para a diferença entre o direito à manifestação e o direito ao insulto. Bem sei que dizer, hoje em dia, que Sócrates acertou uma é estar incondicionalmente do lado dele. Os direitos estão confundidos. O despespero da oposição de esquerda é total. A direita nem existe. Por isso têm que ser todos contra um. Faz lembrar os últimos anos de Cavaco. Por isso é que Jerónimo de Sousa acredita que a manif de dia 18 será "a maior acção", reparem na linguagem, "das últimas décadas". Mas quem é que o segue? Quem vai lutar, "na primeira linha de combate", em nome do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, dos direitos justos dos professores, dos trabalhadores com salários em atraso ou ameaçados de despedimento, dos pequenos agricultores e empresários? Menezes? Nem ele.

27 setembro, 2007

Santana Lopes, um homem a seguir

Pior do que concordar com as ideias de Santana Lopes é concordar com as suas atitudes. É a primeira vez, mas tenho que me pôr do lado do ex-primeiro-ministro (não me esqueço...).
A sua saída durante o Jornal das Nove da SIC foi totalmente justificado. Por motivos que de certeza pertencem ao domínio do transcendental, vi mais uma vez este espectáculo em directo, depois de ter assistido ao Verde Eufémia. Mais incompreensível (longe do racional) ainda, é a segunda vez que vejo isto no Jornal das Nove, sempre com a Ana Lourenço aos comandos da emissão. Foi durante um debate entre a Ana Drago e um economista do PSD, do qual não me lembro o nome, em que este também disse que não participava mais no debate, perante a impertinência da miúda do Bloco de Esquerda, embora não abandonasse o estúdio.
Santana Lopes detém o título de enfant terrible da política e Ana Lourenço não é com certeza o correspondente no jornalismo televisivo. Mas, um engraçadinho que está por detrás dos bastidores e que dá pelo nome de Ricardo Costa, já o pode ser. Basta ler a sua coluna no Diário Económico ou as moderações do Expresso da Meia-Noite para ver como se rói por não poder desmascarar tudo o que sabe. Foi ele que naturalmente e enquanto director de programação veio em defesa da SIC, dizendo que a reacção de Santana Lopes foi "desproporcionada". Pondo o ex-primeiro-ministro (é preciso sempre lembrá-lo...) ao mesmo nível de um treinador de futebol mostrou que a sua atitude foi mais a de humilhar Santana do que defender a estação de televisão. Mas não chegou. Da forma como um comentador da notícia do Público pôs a questão: "Afinal o Mourinho chegou a Portugal, para ir para casa dormir. Noticia sensacional e com muito interesse. Bem feito. Pedro Santana Lopes soube dar a resposta."
Mais interessante ainda é ver a troca de personalidades aqui, tipo "Face-off". Santana, que foi dirigente desportivo, interroga-se, à jornalista e aos espectadores, sobre se o mundo do futebol passa por cima das directas do segundo maior partido político do país. "Acha que a chegada de um treinador de futebol é mais importante que as directas de um partido?", perguntou. A SIC, esse agora pseudo-baluarte do jornalismo de referência, não tem dúvidas. Sim, o futebol é mais importante que a política. Em defesa da SIC, devo dizer que se o futebol e a política andaram sempre de mãos dadas e sujas, como dois irmãos depois do recreio, torna-se difícil ter critérios. E quando Pacheco Pereira vem dizer que Santana Lopes teve razão nalguma coisa, é porque o mundo está quase a acabar. Com programas de informação assim, que é que precisa dos Sopranos à 00h30 ou o House quase à uma?

14 setembro, 2007

Piparote de menina

Não quero que interpretem nas minhas palavras qualquer sinal de xenofobia, mas é por estas e por outras que sou contra a participação de estrangeiros, de gema ou nacionalizados à pressão, na selecção nacional. Tinha que vir um outsider qualquer manchar o bom nome de Portugal e dos Portugueses. A perder a cabeça não era de dar um soco como deve ser?
Reparem:











Não é preciso explicar pois não?

Se é, reparem nas diferenças:














Por um lado, Scolari num aparato gay, por outro, João Pinto qual guerreiro Celta caminhando sem medo contra a lança do inimigo. Isto sim, é um soco bem aviado.

Quando queremos brincar, o que o Scolari fez ou é coisa de maricas ou de miúdo, fazemos como o puto dos sub-21 que, mostrando o elevado sentido de humor que nos caracteriza, tirou o cartão da mão do árbitro numa alegre brincadeira.

Como se já não tivesse feito asneira suficiente, Scolari além de não admitir que não sabe dar um murro como deve ser, arranja uma desculpa mais esfarrapada que um jovem do Intendente que não muda de roupa há 3 anos: `fui defendê o minino”. Azar dos azares, o “minino” era Quaresma, que dá mais sarrafada num jogo que os Neo-Zelandeses do râguebi numa época inteira. Aliás, vê-se claramente que o rapaz está cheio de medo a brincar com a bola.
O que Scolari fez é indesculpável, depois do piparote à menina inventa uma desculpa que não cabe na cabeça de ninguém.

A única coisa que pode abonar um pouco a favor do Piparolari (e não Socolari como vi para aí escrito), é que assim ninguem falou de futebol. O que, convenhamos, por estes dias dá muito jeito à selecção.
Para terminar quero dizer que não sou como aqueles radicais que querem já a demissão do seleccionador, contudo acho que é urgente que lhe dêem formação num ringue de boxe.

03 setembro, 2007

Gualter Baptista Movimento Verde Eufémia Milho Transgénico Entrevista Mário Crespo

À IP

Prémio Denominação pomposa para acto de vandalismo:
"Uma acção política de carácter inédito"

Prémio O que é que eu tenho a ver com este assunto:
"Estava a falar com a imprensa durante o ataque"

Prémio Colecção Outono/Inverno:
"Taparam a cara por razões estéticas"

Prémio Um dia vais perceber o que é:
"A legitimidade é um processo complexo"

Prémio Pinto da Costa&Família Loureiro:
"Não sei se existe pontapé ou um levantar do pé"

Prémio Pare por favor que já me dói a barriga de tanto rir:
"Esta acção é comparável com o que faz a ASAE"

Prémio Já houve uma criança de 5 anos que caiu nesta:
"Eu não estava nessa acção estava só a dar voz a essa acção"

31 agosto, 2007

Mário Crespo vs Gualter Baptista

Na senda dos vídeos neste blog, um já clássico da televisão portuguesa: Mário Crespo entrevista Gualter Baptista, do Movimento Verde Eufémia, e fica de tal modo entusiasmado que se ri do entrevistado e pede mais tempo à regie para continuar uma entrevista delirante. Isto é mesmo um momento histórico. São 36 minutos do melhor, com Gualter Baptista a tentar justificar a acção, a fugir à responsabilidade como mentor, a tentar explicar como o movimento foi automaticamente criado naquele momento, como se encontraram todas as pessoas ali, quem tinha pago o autocarro para levar os freaks à passeata, etc...

http://eufemia.ecobytes.net/2007/08/27/mario-crespo/

29 agosto, 2007

Dinamarca: um passo à frente

Como Cumprir os Limites

23 agosto, 2007

Foi assim

Uma curta pesquisa permite ver que um livro como “Foi Assim”, de Zita Seabra, faz falta para levantar fervura no debate sobre um período da história feito de mitos e depoimentos orais, encerrado em muitas contradições, desmentidos, com uma posição do PCP que não ata nem desata e então, para quem não teve o prazer de acompanhar os cinco anos de 75 a 80, fica apenas um limbo interessantíssimo de seguir. “Comunistas ferrenhos”, como se dizia então, acusam Zita Seabra de ser uma traidora e uma pessoa sem carácter, uma categoria onde caem todos os que mudam de opinião, principalmente quando esta nasce a partir da constatação de contradições que o partido encerra. Pessoas de outros quadrantes políticos, à esquerda e à direita, também dizem que Zita Seabra é uma pessoa a abater moralmente, porque entra num partido de direita (PSD) por puro oportunismo e aceitam o fim da sua relação com o PCP como se o problema fosse ela e não o partido. Recordo-me vagamente de quando isto aconteceu e de não ouvir uma única pessoa a tentar compreender. Até hoje, as dissidências dos militantes em época democrática foram sempre pouco faladas e muito poucas vezes aproveitadas por outros partidos. A história de Zita Seabra é interessante do princípio ao fim porque mostra que pessoas muito inteligentes entravam para o partido da acção não cegamente mas conscientes de que aquela era a melhor solução para o país e para o mundo. E mostra, nas primeiras 50 páginas que eu li, uma organização extrema, quase semelhante a um formigueiro de ideias e comportamentos que funcionava como um relógio para chegar aos seu fim. Mas, sobretudo, de como a ideologia comunista conseguia que as pessoas se tornassem instrumentos ao serviço de uma organização, deixando tudo para trás: família, filhos, mulheres, fortunas, amigos.

21 agosto, 2007

O vale era verde, Eufémia

Agosto esquisito, sol num dia, chuva nos 3 seguintes e a praia onde não se pode estar. Um Agosto destes deixa algumas pessoas sem saber o que fazer: e que tal vandalizar uma propriedade privada aproveitando a companhia das câmaras de televisão e da GNR? Boa! Bora lá!

Gualter Baptista, porta voz do Movimento Verde Eufémia (com toda a certeza que o nome foi escolhido pelo próprio), é provavelmente o maior anormal a ter tempo de antena na comunicação social dos últimos tempos.
Segundo tal personagem, uma espécie de cruzamento entre Pinto da Costa, Valentim Loureiro e o Sapo Cocas, o objectivo de tal acção era, e passo a citar com um prazer que nem imaginam, “restabelecer a ordem ecológica, moral e democrática através de uma acção de desobediência civil, uma das formas de manifestação numa sociedade civil democraticamente evoluída”. Prosseguindo com uma eloquência verbal capaz de fazer inveja a toda a gente, dispara: "estudos independentes revelaram alterações das funções hepáticas e renais (provocadas pelo consumo de alimentos transgénicos)”, para mais à frente lamentar "a falta de estudos independentes nesta área uma vez que há efeitos na saúde pública que estão ainda por conhecer a fundo". Perceberam? Eu também, o gajo é jogador de futebol e está de férias.
Para terminar remata com um “não pensem que se trata de um bando de vândalos sem ideias e que não tinham mais nada para fazer”. Claro que não, é preciso estar de muito má fé para pensar uma coisa dessas.
Urgente, arranjem uma Câmara Municipal para este senhor.

31 julho, 2007

Bergman, Antonioni, Serraut

Ingmar Bergman morreu ontem. Os primeiros meios a dar a notícia foram os jornais online. Numa questão de minutos, conseguiram depoimentos de alguns cineastas e cinéfilos portugueses, tendo mesmo um deles ficado surpreendido por ainda não saber da notícia. Mas logo se pronunciaram sobre o “lendário” realizador sueco como “para lá da história do cinema” (Joaquim Sapinho), responsável por “uma relação sensualista entre as personagens e o mundo” (Joaquim Sapinho), um homem que “compreendeu o cinema como uma companhia de teatro” (Jorge Silva Melo), este último caso não abonando muito a seu favor. À noite, todas as televisões falaram deste fatal desaparecimento. Jornais insuspeitos nestas andanças, como o Destak, sublinharam o fim de Bergman. Quantas pessoas terão visto um filme dele? Quantas terão gostado? Deixando isto para trás: o que nenhum dos habituais comentadores estava à espera era que, horas mais tarde, outro realizador “lendário”, Michelangelo Antonioni, iria também morrer. Dessa forma, a morte do segundo terá sido abafada pela morte do primeiro. Quem se iria pronunciar pela morte do segundo depois de se ter pronunciado sobre o primeiro como o maior de sempre? E Antonioni, seria um realizador de segunda, com o “Blow Up” e o “Profissão: Reportér”? São estes os problemas de endeusar algumas figuras. Imaginemos que Manoel de Oliveira também morria. Dada a prioridade por causa de ser português, já estou a ver os títulos. “Europa fica sem cineastas. Oliveira era o maior, mas Bergman e Antonioni não eram maus”. Os comentadores ficam baralhados, sem saber o que dizer. Não será melhor fazer pré-obituários? Afinal, quem ficará surpreendido por uma pessoa com a idade deles morrer? E Michel Serraut, um “lendário” actor francês que morreu entre Bergman e Antonioni? Quem falou dele?

06 julho, 2007

The Simpsons

“A family can sit down and watch it, but a snarky writer from the Observer respects it, and so does someone who's wearing a dirty cat cap and driving a truck across the plains”. Isto é Conan O’Brien, do Late Night Show, a falar do que melhor tem The Simpsons, onde foi argumentista. Pode ser encontrado na Vanity Fair de Agosto.

29 junho, 2007

Tourada

No Pastoral Portuguesa:

"De volta à festa na RTP, um grupo de adolescentes descritos como sendo «forcados amadores de Alcochete» prepararam uma manobra no sentido de evitar que um touro com um ar muito pouco festivo se deslocasse do ponto A ao ponto C. Para este efeito, um dos adolescentes colocou-se no ponto B, tendo ainda o cuidado de informar a audiència sobre a espécie de animal que ali se encontrava para participar na festa: "É touro! É touro! É touro!"
O plano, contudo, foi evidentemente mal ensaiado. O touro, talvez com o pensamento ocupado por chapéus coloridos, línguas-da-sogra, e outros artigos festivos, insistiu em deslocar-se até uma determinada secção da arena, situada precisamente atrás do grupo de adolescentes. O primeiro adolescente tentou abraçar o touro. O segundo adolescente tentou abraçar o primeiro adolescente. O terceiro, quarto e quinto adolescentes tentaram abraçar-se a si próprios, enquanto o touro se esquivava a todas as manifestações de camaradagem, mostrando uma indiferença pelo clima próprio das festas que foi descrita pelo comentador da RTP nestes termos: "o touro a mostrar ali alguma maldade"."

17 junho, 2007

Richard Rorty (1931-2007)

Richard Rorty, filósofo, morre aos 75 anos.
É com esta frase seca que começam os obituários dos jornais norte-americanos e um obituário é uma das formas mais justas de homenagear Rorty. Uma forma de narrativa inexistente na Europa judaico-cristã: porquê celebrizar a vida no momento em que ainda se está de luto?
Rorty ficou conhecido por ter sido um relativista, um filósofo de pouco rigor, um inconsequente. Na América de esquerda, democrata, foi visto com desconfiança porque a defesa do pragmatismo de Dewey e James era demasiado liberal; a esquerda Europeia olhou-o de lado por razões semelhantes: Rorty meteu num saco Kant e sua ideia de paz perpétua mais a trilogia ideológica do Iluminismo "Liberté, Egalité, Fraternité" e esmagou-os com um murro. A direita norte-americana detestou-o quando abandonou a tradição analítica e embarcou pela filosofia da linguagem do Linguistic Turn e pelo misticismo de Wittgenstein. A direita europeia nunca o podia compreender: ele era um acérrimo defensor de todos os pensadores político-sociais da esperança utópica: Platão, o Hegel da Fenomenologia do Espírito, Marx, Trotsky e os pós-modernistas franceses, com Derrida e Foulcault à cabeça.
Rorty era um filósofo de concensos e talvez por isso não tenha conseguido nenhum. Explicando melhor, o ponto de partida do pragamatismo leva-o a pensar que nada é definitivo. Nada tem valor absoluto, nem sequer a História. E se a história da Filosofia não tinha chegado, ao fim de mais de dois mil anos, a nenhuma conclusão sobre aquilo a que se propunha, era porque os pontos de partida de cada um dos filósofos eram diferentes (circunstanciais) motivando todas as decisões intelectuais a partir daí. Qual a conclusão? A filosofia não dá respostas. Resolve problemas. Posta como tinha sido até à publicação de "De la gramatologie" e "Écriture et différance", de Derrida, a história das ideias tinha sido apenas uma discussão de termos, ou vocábulos, uma taxonomia de sentidos, como Wittgenstein já tinha sugerido. Mas Derrida é um filósofo impenetrável e Rorty é tão claro que foi acusado de estar mais próxima da literatura do que da filosofia.
Em "Contingência, Ironia e Solidariedade" põe os pontos nos is e assume a influência da literatura nas suas ideias. Procurando saber como é que o homem pode ser capaz de lidar com ideias contraditórias, que não cabem nos cânones éticos e psicológicos baseados na sucessão lógica, Rorty avança com a ideia do ironista liberal, como Nabokov. O ironista liberal será o homem que é capaz de determinar as suas acções em sentidos diametricalmente opostos sem se contradizer e conseguindo sempre um sentido para o que faz. Como? O ironista liberal é um homem da palavra. Não é um pregador (que foi a primeira coisa em que pensou, conforme conta nesta auto-biografia), mas antes uma pessoa capaz de discutir assuntos, aceitar ideias, mas também convencer. A ideia de solidariedade é mesmo essa: a de um mundo em conversação, constantemente a definir planos de melhoria das condições dos povos mais desprotegidos, sem o apoio de quadros de referência como a carta dos direitos humanos da ONU. No fundo, uma aceitação de parte a parte, com vista a objectivos específicos.
Rorty nunca será estudado nas escolas. As suas ideias e a sua forma de argumentar são demasiado radicais, reconciliadoras e sinceras para que sejam levadas a sério. Ainda para mais, em Portugal, um dos seus maiores discípulos é Manuel Maria Carrilho.